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Humano



Foi a cena mais pertubadora que já testemunhei. Eu sempre desejei ser médico. Quando criança me encantava as histórias de Benjamin Carson e David Livingstone, de Alexander Flemming e tantos outros. Mas nada disso me preparou para aquele momento.


Era um dia ensolarado de inverno. Uma centena de estudantes de Medicina estava apinhada no pátio interno do prédio histórico da faculdade de Medicina, todos com seus jalecos brancos e estojos de metal. O burburinho de dezenas de conversas paralelas e eventuais risadas nervosas não combinava com o cheiro de formol que enchia o ar. Estavam todos ansiosos. Aguardávamos a abertura do laboratório de anatomia, onde passaríamos os próximos meses dissecando cadáveres. Todos queriam parecer preparados para aquele momento. Deus, éramos apenas crianças...


A quase centenária porta do laboratório se abriu com um barulho estridente e as conversas pararam. Silêncio. Cochichos. Os professores saíram para fora e nos cumprimentaram. Tinham no semblante o olhar de quem estava num velório. Educadamente, nos pediram que os seguíssemos em silêncio para uma sala anexa ao laboratório, onde passariam as orientações.


A sala era uma cópia do laboratório, com mesas de dissecação frias, metálicas. Em uma das paredes haviam uma espécie de armários embutidos, com portas metálicas muito antigas. Num canto havia um esqueleto pendurado num pedestal, coberto com marcas coloridas ilustrando a inserção dos diferentes músculos do corpo. É um esqueleto de verdade! - pensei comigo. Circundando a sala, próximo ao teto, alguém havia pintado afrescos mostrando cenas mórbidas de um reino escuro e cheio de corpos, interrompido por vezes por figuras que lembravam médicos ou estudiosos debruçados estudando. Numa das paredes havia algo escrito, um texto ornado com plumas e ossos. Uma oração.


"Ao curvar-te com a lâmina rija de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas; cresceu embalado pela fé e esperança daquela que em seu seio o agasalhou, sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens; por certo amou e foi amado e sentiu saudades dos outros que partiram, acalentou um amanhã feliz e agora jaz na fria lousa, sem que por ele tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome só Deus o sabe; mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir a humanidade que por ele passou indiferente."


Nos próximos meses seríamos responsáveis por dissecar e preservar os cadáveres de pessoas desconhecidas. Passaríamos horas debruçados sobre seus corpos nus estudando uma arte que hoje está cada vez mais rara. Todos os dias éramos obrigados a passar em frente à oração ornada da parede do laboratório de anatomia, para nos lembrarmos de que aquelas pessoas mereciam respeito e reverência.


Talvez a lição mais importante daquelas aulas foi que por dentro, somos iguais. Olhando de perto, todos nascemos do amor de duas pessoas, temos sonhos e esperanças. Sofremos, sentimos saudade e temos medo de nossa própria finitude. Racismo, etnias, origens, nada disso importa. É um absurdo imaginarmos que diferenças culturais e superficiais nos separem e, pior, nos classifiquem como melhores ou piores, como critérios de dignidade. Somos humanos, sentimos dor, choramos, sorrimos, cantamos, amamos.


Quando olhamos um embrião humano, ninguém sabe a cor dos olhos ou da pele, se será rico ou pobre, amado ou desprezado, se fará grandes coisas na vida de muitos ou impactará apenas um punhado de pessoas ao longo de sua vida. Escreverá uma história? Gostará de música? Como irá reagir ao experimentar seu primeiro limão? Quem o amará?

Na tela do aparelho de ultrassom eu vejo apenas uns pontinhos piscando, um coração pequenino batendo. É um milagre.


Todos nós já fomos milagres, agora somos humanos, o que seremos depois?





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